Uma avalanche no Broad Peak, no norte do Paquistão, ceifou a vida de dez alpinistas, entre eles Nirmal Purja, lenda do montanhismo que revolucionou as escaladas nos Himalaias e inspirou milhões ao redor do mundo.
A montanha que não perdoou
No dia 30 de julho de 2026, a face oeste do Broad Peak, décima segunda montanha mais alta da Terra, com 8.051 metros de altitude, transformou-se em uma armadilha mortal. Por volta das nove horas da manhã, horário local, uma massa de neve carregada pelo vento desprendeu-se da encosta situada entre os acampamentos dois e três, arrastando uma expedição internação completa por centenas de metros de desnível.
O acidente ocorreu na região de Gilgit-Baltistan, no extremo norte do Paquistão, onde a cordilheira do Karakoram abriga cinco dos catorze picos que ultrapassam os oito mil metros. Naquela altitude, onde a atmosfera contém menos de um terço do oxigênio encontrado ao nível do mar, qualquer movimento inesperado da natureza se converte em sentença. A avalanche não deu chances.
A lenda que partiu no auge
Entre as dez vítimas fatais estava Nirmal Purja, conhecido no mundo inteiro como Nimsdai. Aos 43 anos, o alpinista nascido no Nepal e naturalizado britânico era considerado uma das figuras mais influentes da história contemporânea do montanhismo de altitude. Sua trajetória começou nas fileiras dos Gurkhas do Exército Britânico, seguiu pelas Forças Especiais e encontrou no gelo a sua verdadeira vocação.
Em 2019, Purja realizou o que muitos especialistas consideravam impossível: escalar os catorze picos acima de oito mil metros do planeta em apenas 189 dias. O recorde anterior, pertencente ao sul-coreano Kim Chang-ho, era de sete anos e dez meses. Purja reduziu esse tempo a seis meses e seis dias, numa façanha batizada de Projeto Possível e imortalizada pelo documentário da Netflix "14 Picos: Nada É Impossível", que o projetou como o primeiro celebridade do montanhismo na era do streaming.
"O mundo perdeu um dos maiores alpinistas da história. Não há palavras que possam aliviar a dor desta perda inimaginável."
Além do recorde, Purja liderou, em janeiro de 2021, a primeira ascensão invernal do K2, a segunda montanha mais alta do mundo e até então considerada o último grande desafio do alpinismo. Naquela ocasião, ele e nove companheiros nepaleses caminharam os metros finais de braços dados, entoando o hino nacional do Nepal. Desta vez, porém, a montanha não permitiu desfecho semelhante.
Os sinais que outros perceberam
Nos dias que antecederam a tragédia, outras expedições já haviam abandonado o Broad Peak. A partir de 22 de julho, nevascas intensas começaram a cobrir a montanha com uma espessa camada de neve fresca. Equipes experientes, como a de David Klein e Ian Overton, decidiram retirar-se do acampamento base, avaliando que as condições não eram seguras para uma nova tentativa de cume.
A regra de ouro entre alpinistas de alta montanha diz que, após grandes precipitações de neve, é preciso aguardar dias para que a massa se compacte ou escorregue naturalmente antes de retomar a escalada. Purja e sua equipe, operando pela Elite Exped — empresa de expedições fundada por ele e pioneira no modelo de guia internacional liderado por nepaleses — optaram por permanecer.
Os rastreadores GPS dos alpinistas registraram o trajeto da equipe desde o acampamento dois, a 6.166 metros, por volta das cinco e meia da manhã. Às nove horas, os dispositivos indicavam posições próximas aos 6.660 metros. Meia hora depois, os sinais mostravam uma queda vertiginosa de mais de seiscentos metros em alguns casos, com um dos equipamentos registrando deslocamento superior a um quilômetro vertical.
As dez vidas perdidas no gelo
A avalanche não fez distinção de nacionalidades. Além de Purja, o desastre vitimou cinco guias nepaleses, entre eles Pur Bahadur Gurung, conhecido como Yukta, e Nima Sherpa, ambos figuras consagradas no cenário do montanhismo de altitude. O guia paquistanês Sohail Sakhi, que também atuava como geógrafo e fotógrafo de alta montanha, não resistiu.
Entre os clientes da expedição estavam a alpinista americana Mallory Geis, de 39 anos, oriunda de San Antonio, no Texas, que realizava sua primeira tentativa em um pico de oito mil metros no Paquistão; a omãense Nadhira Al-Harthy, primeira mulher de seu país a alcançar o cume do Everest; e um montanhista chinês identificado apenas como Sr. Wang. A perda coletiva abalou comunidades de cinco nações distintas.
O resgate impossível
As operações de busca e salvamento mobilizaram helicópteros militares paquistaneses, equipes de resgate de alta montanha e tecnologia de drones. No entanto, a altitude extrema, o terreno acidentado e as condições meteorológicas adversas transformaram a missão em uma das mais desafiadoras da história recente do socorro alpino na região.
Diferentemente do Nepal, onde resgates por long line — técnica que utiliza cabos suspensos a partir de aeronaves — são relativamente comuns, o Paquistão não dispõe da mesma infraestrutura para operações aéreas em altitudes superiores a seis mil metros. Os primeiros corpos foram localizados e recuperados apenas no dia seguinte ao desastre, enquanto os demais permaneciam em um local de difícil acesso, identificados por imagens de drones mas ainda não retirados da montanha.
Inicialmente, houve uma faísca de esperança. Mingma Gyabu Sherpa, cofundador da Elite Exped, enviou mensagens durante as primeiras horas do resgate informando que o sinal de GPS de Purja ainda se movia. "A localização do Nims está se movendo, irmão. Temos esperança de que ele ainda esteja vivo", escreveu. Mas os pings subsequentes revelaram velocidade zero, indicando que o equipamento estava imóvel sob a neve, transmitindo sinais enganosos.
Reações e luto mundial
A notícia da morte de Purja e de seus companheiros provocou comoção internacional. O primeiro-ministro do Nepal, Balendra Shah, publicou uma mensagem emocionada em suas redes sociais: "A escalada não é apenas uma jornada ao topo. É a expressão suprema de coragem, disciplina, sacrifício e confiança indomável que desafia os limites humanos. Os montanhistas permanecerão sempre imortais na história por sua coragem e dedicação."
O ministro da Defesa do Reino Unido, Wes Streeting, também prestou homenagem ao ex-militar: "Ele era um homem inspirador que serviu às nossas Forças Armadas por muitos anos e cujas incríveis aventuras de montanhismo são conhecidas em todo o mundo." O presidente do Clube Alpino do Paquistão, Irfan Arshad Khan, classificou a perda como "imensurável para a fraternidade do montanhismo global."
"A montanha inspira com sua beleza, mas também nos lembra dos imensos riscos enfrentados por aqueles que se aventuram no alto do Himalaia e do Karakoram."
O legado que transcende a controvérsia
Purja deixou uma marca indelével no montanhismo moderno. Ele foi o responsável por popularizar o modelo de expedições rápidas em múltiplos picos de oito mil metros, transformando uma atividade que tradicionalmente demandava anos em empreitadas de poucos meses. Sua empresa, Elite Exped, colocou guias nepaleses no centro das operações, desafiando um modelo historicamente dominado por ocidentais.
Ao longo da carreira, ele alcançou o cume dos catorze picos mais altos do planeta 56 vezes. Em 28 dessas ocasiões, escalou sem oxigênio suplementar. O Broad Peak representaria mais um passo em direção a um objetivo ambicioso: tornar-se a primeira pessoa a completar todos os catorce picos de oito mil metros duas vezes sem uso de cilindros de gás. Faltava apenas uma montanha para que o feito fosse alcançado.
Nos últimos anos, a trajetória de Purja também foi marcada por acusações de assédio sexual feitas por duas mulheres, em 2024. Ele negou as alegações por meio de seus advogados. Independentemente das controvérsias, sua influência sobre a forma como o mundo enxerga o alpinismo de altitude permanece inegável.
Conclusão
A avalanche no Broad Peak ceifou dez vidas e deixou um vazio irreparável no montanhismo internacional. Nirmal Purja, o homem que provou que limites existem para serem superados, encontrou no gelo do Karakoram o fim de uma jornada que inspirou milhões. Aos 43 anos, ele deixa um legado de ousadia, inovação e representatividade para uma geração de alpinistas que cresceu assistindo ao seu documentário e sonhando em tocar o céu.
A tragédia reforça, mais uma vez, a natureza implacável das montanhas mais altas do mundo. Não importa a experiência, a preparação ou a fama: no reino da altitude extrema, a natureza impõe suas próprias regras. As dez vidas perdidas no Broad Peak servem como um doloroso lembrete de que, por trás de cada recorde e de cada cume, existe um risco real e, muitas vezes, definitivo. O mundo do alpinismo chorou em julho de 2026 — e jamais será o mesmo.